Jane Austen é romance e muito mais

Ontem me deparei com esse texto – longo, diga-se de passagem – sobre como a obra de Jane Austen foi reduzida a “literatura cor-de-rosa”. Minha primeira reação, antes mesmo de ler, foi de querer bater em quem escreveu. Entra naquele velho clichê de que romance não é livro sério – e francamente, a gente já tem inimigos demais do gênero pra que alguém que gosta de Jane Austen queira pontuar essa distinção de forma pejorativa.

Mas, segui. Continuei lendo. E entendi a reflexão do texto (apesar de continuar detestando a parte que coloca a “literatura cor-de-rosa” como algo ruim, de má qualidade – mesmo que no final a autora se explique melhor). Bom, só esse nome já deveria ser abolido, porque reforça o estereótipo de que é uma coisa de mulherzinha-desmiolada.

De fato, as adaptações cinematográficas deixam de lado boa parte da sagacidade da escrita de Austen, todas as nuances e críticas à sociedade da época, algo que fez seus livros subirem no patamar. Mas, o romance está lá e numa adaptação é impossível levar tudo o que está nas páginas de um livro (Harry Potter e Game of Thrones que o digam, né).

Falar que os livros só são bons porque tem esse quê de sagacidade é deixar de lado que a sagacidade e o romance podem andar de mãos dadas – e combinar muito bem, obrigada. É querer colocar o livro – e a mulher que o escreveu – em um caixinha disso ou daquilo.

Jane Austen significa muitas coisas para leitoras diferentes. E leitoras que estão em fases diferentes da vida. Cada vez que releio, descubro algo novo, outra sutileza, outra alusão a costumes da época, outra crítica sutil ao comportamento humano. E nisso está a beleza dos livros de Austen: nunca ficam velhos, não importa por qual perspectiva você entenda a obra. Seja a romântica, quando tudo dá certo no final, seja a crítica social, que alfineta a futilidade e a falta de caráter.

Afinal, vocês acham que mesmo na época da publicação todo mundo entendia a sagacidade de Jane? Todo mundo pegava as nuances e as críticas que ela fazia? Ela se destacava por estar fazendo algo diferente na época, que era um romance de costumes, sem o exagero dos romances góticos (Northanger Abbey, inclusive, caçoa fortemente disso). Mas, nem todo mundo pegava as sutilezas.

Falar que alguém não percebeu isso ou aquilo entra naquele comentário prepotente “Você leu errado, lê de novo”. É claro que as adaptações vão colocar coisas que não estão nos livros, por isso são adaptações e porque precisam vender (e às vezes é mais fácil mirar nos estereótipos). Algumas são super fiéis, outras são mais viajadas. Mas, tem quem goste. Eu odiei Orgulho, Preconceito e Zumbis, mas um monte de gente adorou.

É a velha história: gostou de um filme? Leia o livro também! Você só vai enriquecer o seu repertório. Não quer ler o livro? OK, tudo bem! Mas, saiba que aquele filme é apenas uma parte de uma obra muito mais complexa. Reduzir quem lê determinado tipo de livro (ou assiste determinado tipo de filme) é apenas uma maneira de querer se sentir superior. E isso diz muito mais sobre quem julga do que sobre quem está enriquecendo seu vocabulário, dando asas à imaginação, não importa o estilo de literatura.

As pessoas têm tempos (e gostos) diferentes.  Saiba respeitar isso.

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